Mãe,
Lembro que há muito tempo atrás, você me pediu pra que eu te escrevesse uma carta. Na verdade, você disse que eu não precisaria te dar presentes, bastava que eu escrevesse alguma coisa. Só que, não sei por quê, nunca fiz isso. Idiotice, preguiça, enfim não sei qual seria o motivo. Mas o fato é que acabei não escrevendo, e hoje simplemente fiquei com vontade de te escrever algumas coisas.
Não sei se já te falei, mas montei um site na internet onde publico vários textos. A maioria deles tem você sendo lembrada, seja pelo que fez por mim, ou pelo que me lembro de você. E nos dois sentidos gosto muito de tê-la comigo.
Sendo assim nada melhor que tentar colocar um pouco do meu amor por você em verso e prosa, ou texto e contexto, ou até mesmo rimas. Mas não consigo. Com você não consigo ser subjetivo, não consigo utilizar de subterfúgios da língua portuguesa aos quais me acostumei sempre que precisava descrever o que sinto, senti, ou sentia... Você merece que eu vá direto ao ponto, e descreva tudo o que penso de maneira direta e objetiva.
Antes de mais nada, gostaria de dizer o quanto lembro de você. Do quanto lembro da sua respiração enquanto me carregava no colo quando morávamos em Manilha. Lembro de você tentando correr atrás de mim pela casa para me dar banho, e eu me esquivava com habilidade, subia nos azulejos empilhados na sala, atravessava a janela, andava sobre uma pilha de tijolos, e me jogava no monte de areia na calçada. E como já estava longe, você desistia, me ameaçava e eu voltava rapidinho, com medo da ameaça se concretizar. Pra você pode ter sido cansativo, mas pra mim era como brincar com você. Aquele era meu jeito de falar: “Mãe brinca comigo!”
Lembro também de várias vezes que tentou jogar bola comigo. Eu adorava, não pelo esporte em si até mesmo por quê até hoje não sou muito fã, mas a sua companhia e o seu empenho em se divertir comigo valiam as caneladas e os bicudos que você dava. E você não faz idéia do quanto me divertia.
Inúmeras vezes tentou entrar no meu mundo, e entender o que eu gostava, o que eu queria, o quê me apeteceria. Mas eu, por sempre saber ser, e gostar de ser, naturalmente complicado, acabava dando incentivo para que você desistisse momentaneamente e me deixasse só, para montar meus robôs com motores e luzes. Solidão momentanea que acabava quando você voltava com os vizinhos, mostrando-lhes as minhas “maravilhosas invenções”.
Lembro do seu colo de maiô enquanto tomávamos banho de qualquer coisa, fosse piscina, rio, mar, lagoa.. até de carcaça de geladeira. Lembro das comidas deliciosas, do ovo mexido, das panquecas, dos maravilhosos bolinhos de chuva, do leite queimado que só você sabia acertar o jeitinho que eu mais adorava.
Lembro de você tentando me fazer estudar... Sabe que até hoje tenho dificuldades nisso? Mas sei que é problema da minha cabeça, às vezes queria ser como meu irmáo, que tudo o que quer estudar ele consegue. Comigo, não sei o quê acontece, mas quando começo a estudar e vejo que é fácil de aprender, deixo pra lá. Sempre gostei de desafios Mãe, essa sempre foi a graça da vida pra mim. Se era pra subir no galho mais alto, da árvore mais alta, eu sempre quis ser o primeiro... Portanto não deve se culpar por não ter conseguido me fazer estudar o quanto deveria. Até por quê bem ou mal, acabei me virando... Sempre acabava me virando, por quê a independência eu aprendi de você ao longo da vida que passamos juntos.
Lembro de várias vezes que precisou me punir com rigidez, e com razão. Eu sempre mereci, pode apostar. Quando você me batia, eu sempre soube a razão de estar apanhando, embora você pudesse estar me batendo por outra travessura. É como minha irmã fala a meu respeito: “O Fabinho nunca dá ponto, sem nó.”
Já dei inúmeros outros nós que você não precisou desatar. Ou simplesmente não ficou sabendo, mas isso fez com que eu evoluísse, e pudesse hoje falar com orgulho das coisas erradas que eu fazia, por ter sobrevivido à elas.
Lembro de você andando atrás de mim de madrugada, andando pelas ruas, indo nos lugares onde eu costumava ficar pra me carregar de volta pra casa. Sempre coberta de razão, afinal de contas aquilo não era mesmo hora pra eu estar na rua. Lembro das minhas namoradas que você prontamente se interessava em conhecer, e do seu policiamento sempre que eu saía de casa, ou melhor, sempre que vou fazer qualquer coisa. Eu simplesmente adoro o famoso: “Modere-se.” Que até hoje você ainda insiste em repetir, de verdade. Já parou pra pensar que ele engloba toda uma regra de etiqueta, comportamento e bons costumes que pode haver? Sei disso por saber o quê fazer, por saber que foi você quem me ensinou. Por saber que você me fez ser o que sou hoje. Por que sem você eu não seria nada do que sou hoje. Por que sem você eu não sou nada.
Lembro-me, dessa vez melhor do que todas as outras, de quando cheguei bêbado, com inacreditáveis 13 anos de idade, em casa e você e minha irmã me deram banho, e me colocaram na cama. Esse foi o meu maior arrependimento de toda a minha vida, pois foi a vez que percebi o quanto te magoei, o quanto te fiz sofrer, o quanto te fiz sentir desgostosa comigo. E só não me arrependo mais pois, por saber o que havia te causado, aprendi que nunca mais deveria repetir tal cena. Que eu deveria começar a arcar com as consequências dos meus atos. Mas nesse dia, eu aprendi a nunca mais querer te magoar. A nunca mais querer te ver me ignorar, simplesmente pra não lembrar do que eu tinha feito. E por isso Mãe, eu te peço desculpas mas também te agradeço por ter me castigado, por ter me ignorado, por ter deixado de demonstrar afeto pra que eu aprendesse a te valorizar, e valorizar tudo o que sempre me ensinou, o jeito certo de fazer as coisas.
Inúmeras foram as brigas que tivemos, e ainda me pergunto de onde eu sempre tirava tanta razão??? De onde apareciam tantos motivos para que eu fosse absolvido, ou que fosse acreditado e levado a sério? Infelizmente o argumento sempre esteve a meu lado, embora eu o tenha distorcido em tantas vezes. Me desculpe por isso também Mãe, devia ter te escutado mais ao invés de ter falado tanto.
Aprendi a gostar do que você gostava, tudo o que me dizia sempre me fascinou... As histórias da casa da roça, das brincadeiras debaixo dos pés de manga, ou até “pés de árvores..”. Embora tenhamos tido poucas conversas. É, isso mesmo, pra mim foram poucas. Eu devia ter me interessado mais pelas coisas simples que você sempre gostou, devia ter me inserido no seu mundo e não ter tentado ser sempre diferente. Bom, mas também não me arrependo e também sou grato por isso, até por quê mesmo com tudo isso você não deixou de me amar 1 minuto sequer.
Ah Mãe, me lembro de tanta coisa, de tanta coisa que você fez parte em minha vida, de tantos sacrifícios que a senhora fez, de tantos problemas que teve que passar, de tanta vida que vivemos juntos. De tudo.
De você sempre fica o quê há de bom, e pra falar a verdade, tudo o que há de bom em mim, veio de você.
Hoje, com meu filho, até os seus erros (completamente compreensíveis) me fazem ser uma pessoa melhor, ser um pai melhor mesmo eu ainda tendo inúmeros defeitos.
Só não quero continuar a viver sabendo que nunca disse isso tudo a você. Sabendo que nunca agradeci por tanto esforço, por tanto sacrifício, por tanto amor, tanto carinho, tanto afeto, tanto acalento nos momentos de dor, é tanta coisa Mãe que não dá pra descrever, é até difícil de agradecer por ser tanta coisa.
Só sei que tentei escrever isso tudo só pra dizer que te agradeço acima de tudo, que as lágrimas que descem do meu rosto enquanto escrevo, são o excesso de alegria, felicidade, e amor que sinto transbordando dos meus olhos. Por causa do quê sinto por você. É como uma sensação de saudade que se mistura com coisa boa, com colo de mãe, com o seu sorriso orgulhoso quando eu acertava em alguma coisa, com bolinho de chuva, com os gritos de: “- Fáááááábio, acabou o peraí, vem pra casa agoraaaa!!” enfim, com tudo.
As palavras são muito vagas para descrever tamanho sentimento mas, para respeitar a minha posição inicial, vou ser direto e objetivo:
Mãe, te amo. Obrigado por ser minha Mãe.