Devaneios de um Qualquer..


16/09/2008


A paciência do Seu Bastião.

Estava no ponto de ônibus sob uma chuva daquelas que nem molha demais, nem de menos, só incomoda o suficiente, quando parei para prestar atenção no que as pessoas que, também incomodadas com a chuva, diziam. Ouvia coisas um tanto quanto normais do tipo:

"Tenho que comprar mais acelga pra fazer uma sopa pro papai.."

Que diabos é ACELGA???

Enquanto outra respondia perguntando:

"Mas seu pai num sarou ainda não? O quê que ele tem mesmo?"

E de volta a resposta:

"Ah minina, o médico falou que era só uma coisa no fígado, mas ele falou que tá com coceira no corpo todo, e isso num deve ter nada a ver com o fígado, pra falar a verdade eu tô achando que é "irizipela"".

(....????)

Mas quando o assunto chegou a esse ponto, reparei que mais a meu lado vinha um senhor cantando uma música do Roberto Carlos, se não me engano o nome da música era "Traumas":

"..falam das coisas que eu via

no delírio da febre que ardia."

(não desmerecendo a música, mas sim o intérprete)

Pensei comigo: "Chegando em casa vou tomar 2 efervescentes de redoxon e ficarei na cama!"

E o incômodo da chuva continuava, e eu não sabia se o pior é estar com "ziquizira" ou "irizipela", ouvir Roberto Carlos tão mal cantado pelo senhor que estava perto de mim ou se ainda era estar na chuva com guarda-chuva (ou sem), aquela coisa desengonçada que se usa quando você pensa que não está se molhando, mais está e não satisfeito quando vai fecha-lo acaba se molhando mais ainda e molhando a todos ao seu redor, por isso, me lembrei, que não trazia um comigo.

E foi exatamente o que aconteceu quando o homem que cantava Roberto Carlos, para a minha impaciência, parou exatamente na minha frente para entrar no ônibus que havia chegado e sacudiu o dito cujo, parecia que de propósito, me molhando todo.

Ele me pediu desculpas com um leve balançar de cabeça, e foi só.

Estando no ímpeto de toda minha impaciência, simplesmente não esbocei reação, fiquei na minha, afinal de contas essas coisas são normais de se acontecer.

Minha vontade de sair da chuva era tão grande que deixei de lado o ocorrido passado e, finalmente, consegui entrar no ônibus, que estava vazio pra variar.

Estava eu indo me sentar, quando mais uma maravilha para testar minha paciência acontece, o banco do ônibus estava cheio de água, mas tudo bem logo após eu já ter me sentado lá, ele ficou apenas úmido, por que minha calça fez o trabalho de secá-lo.

A partir daí, momentaneamente, não mais me importei com o ocorrido, e só me imaginava debaixo das cobertas vendo TV, fazendo algo aconchegante, quando voltei novamente toda minha impaciência para o motorista do ônibus que andava mais ou menos a uns 30 km/h, e o mais engraçado que sem se importar com a chuva, ou com o tempo, muito menos com a pressa de algum passageiro ou com qualquer outra coisa que não fosse a sineta que é tocada quando se quer que o ônibus pare. Estava lá, sentado, como o Rei do Mundo e das Estradas de Rodagens. Nada o incomodava, aquele tempo para ele nada significava, o fato de ter passageiros com vontade de estrangula-lo, também não surtia efeito algum. Continuava ele nos 30 km/h, com toda a paciência do mundo em seu trono, impávido, impecável, inabalável, a não ser pela sineta.

Quando ela foi tocada, o senil intérprete do Roberto Carlos, se levantou ainda dizendo meio que por entre os dentes:

"Meu pai.. un tã num tã nã nã..

pra que eu nunca sssssstisse..."

Ele ainda continuava com a mesma música na cabeça, e todos sabem que mulher e música ruim são coisas que não se tira facilmente da cabeça, mas essa parecia que não era o caso dele, ele também se sentia com toda a paciência do mundo, e a música era de agrado dele.

Quando ele chegou perto da porta do ônibus que havia parado, virou-se para o Motorista e disse:

"Té mais Bastião!"

E o (Rei) Bastião respondeu:

"Té mais meu jovem."

Partimos de novo na viagem que para mim já se tornava um martírio, agora sem fundo musical, já que o Roberto Carlos de araque tinha descido. Mas ainda tinha aquele papo da tal da "irizipela":

"É minina, outro dia eu tive que passar álcool nele todinho, por que ele tava reclamando demais, dizia que estava "pinicando" além de estar todo "empolado".

Resposta:

"Coitado gente!"

Entre questionamentos pessoais sobre de quê o pobre coitado deveria realmente estar sofrendo, FINALMENTE, cheguei ao ponto próximo à minha casa, puxei aquela cordinha com tanta força, que se puxasse mais um pouco, meus pés sairiam do chão. Me segurei para não dizer pras mulheres darem um banho de pirimbeta gaúcha no homem. E ainda incomodado pela calça, camisa, e todas as outras vestes molhadas, fui em direção à porta para me livrar daquele pequeno inferno que se formava dentro de minha cabeça entre "Acelgas", Roberto Carlos, água, cueca molhada, ziquiziras e irizipelas.

E quando saía com a cabeça, as costas e, principalmente a bunda molhada, escuto um jovial e alegre:

"Até mais meu Jovem..."

E lá foi o rei montado na sua carruagem real, passeando pelo seu reino sem se importar com os plebeus.

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Texto publicado em 02/08/2002 no site do Canal do mIRC de Itaperuna.

Escrito por Fabio Fernandes... às 23h54
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Não sei, esqueci.

Tava outro dia pensando mas, de uma hora pra outra, simplesmente esqueci. Sabe como é chato quando exatamente no momento que você resolve lembrar alguma coisa, você a esquece ?
Poxa, isso é um fato comum. Quem nunca esqueceu alguma coisa no meio do que estava contando? Ou pensando? Ou lembrando? Tá bom, tentando lembrar...
E o pior de tudo é que quando isso acontece, o seu sub-consciente fica lá, matutando. Tentando encontrar a resposta pra pergunta que o consciente fez. Aí quando você vai guardar o carro na garagem ou, melhor, botar o lixo pra fora simplesmente brota na sua cabeça o nome daquele ator, daquele filme, que você tava comentando no trabalho, com... Com quem mesmo? É aquela garota nova, aquela que tá trabalhando na contabilidade...
Bom vamos fazer o seguinte, eu deixo isso pra lá por enquanto, vou pra casa, boto o carro na garagem e o lixo pra fora ao mesmo tempo e te ligo pra contar o que era, ok? Quem sabe assim não funciona?
Inútil acreditar, afinal de contas se vc fizer qualquer esforço voluntário não vai conseguir lembrar daquilo que esqueceu. É assim que as coisas são. Portanto abstraia, simplesmente deixe pra lá que uma hora ou outra você lembra.
Mas era o quê mesmo que eu tava tentando lembrar? Não sei, esqueci. Acho que vou botar o lixo pra fora...

Escrito por Fabio Fernandes... às 23h07
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